Teologia da Imaculada Conceição

Como a exegese tem emoldurado a Imaculada no amplo quadro da história da salvação, assim a teologia deve conectar na visão global do mistério cristão. Com efeito, desde o ponto de vista histórico, a Imaculada Conceição tem sido vista intuitivamente pelos fieis no amplo horizonte dos dados revelados, entre os quais tem que mencionar a santidade de Maria, a redenção operada por Cristo e o pecado original. Isolar a verdade mariana se corre o risco de não compreendê-la, e inclusive de dar uma interpretação herética, como ocorreu com Pelágio e Julião de Eclano, os quais consideraram a Maria sem pecado, mas separando-a do influxo do único mediador e alterando radicalmente o significado profundo da Imaculada Conceição no sentido da auto-salvação. Por diversos motivos de ordem teológico, ecuménico e pastoral (como o primado da perspectiva cristocentrica sobre a amartiológica – ciência que estuda o pecado e suas consequências-, a exigência de uma formulação com términos mais bíblicos e positivos, a instancia de propor a fé em expressões ao tom da cultura contemporânea…) movem a uma apresentação atualizada da Imaculada Conceição. Sem desprezar nada do conteúdo do Dogma definido, necessita emoldura-lo não só no conjunto da vida de Maria, mas também harmonizá-lo com os diversos elementos da História da Salvação, e sobre tudo com seu centro vivo, que é Cristo.
1 – SIGNIFICADO MANIFESTATIVO DO AMOR GRATUITO DO PAI

Seria um erro grave apresentar a Imaculada Conceição antes de tudo, como um privilégio ou uma exceção, como uma condição totalmente diversa e isolada de todo o resto da humanidade. Segundo a Escritura, qualquer acontecimento ocorrido no tempo é uma realização do plano divino de Salvação traçado pelo amor misericordioso e sábio do Pai “antes da criação do mundo” (cf Ef 1,4) Também a Imaculada Conceição forma parte do desígnio salvífico de Deus, do “único e idêntico decreto” – dirá em terminologia mais jurídica a Bula Ineffabilis Deus – pelo qual Deus dispôs a encarnação redentora. Todas as confissões cristãs estão de acordo – mais adiante que as afirmações bíblicas favoráveis às teses escotistas ou tomistas da encarnação de Cristo, inclusive sem dar-se o pecado dos homens, no contexto da eterna eleição salvífica dos homens em Cristo, que historicamente comporta a vitória sobre o pecado. Se trata para todos da eleição gratuita: nenhuma obrigação por parte de Deus, nenhuma pretensão por parte do homem. Pois é um fato que Deus realiza sua aliança de amor superando a ruptura operada pelo homem: mais ainda, como afirma K. Barth- “a graça se faz ainda mais forte, não é anulada, nem reduzida, nem debilitada” quando se faz redenção e reconciliação. Também no caso de Maria, Deus só justifica gratuitamente, fiel ao seu projeto de salvação, mediante um veredito da graça redentora em Cristo. Acima do modo preservativo ou liberativo da redenção, a salvação é antes de tudo um ato livre e soberano de Deus, que exclui toda auto justificação: “Todos… são justificados gratuitamente por sua graça, mediante a redenção, a de Cristo Jesus” (Rm 3,24). Sendo, que na Imaculada Conceição não é questão de fé ou de libre aceitação por parte de Maria respeito à salvação, esta constitui um significado luminoso da gratuidade do amor de Deus, que atua antes já da resposta responsável da criatura. A Imaculada proclama, a cabeça da falange dos salvados: Soli Deo gloria! A preservação do pecado e a plenitude da graça não são frutos de sua fé ou liberdade orientada a Deus, e tampouco de suas obras; estas, igual a cada um dos atos de justificação, se inscrevem na eleição salvífica do Pai, que decide desde a eternidade amar aos homens gratuitamente, mais adiante que o pecado e os méritos. A Imaculada Conceição manifesta a absoluta iniciativa do Pai e simboliza que “desde o começo de sua existência Maria estava envolvida no amor redentor e santificador de Deus.”
2 – EXPRESSÃO PERFEITA DA REDENÇÃO OPERADA POR CRISTO

Relacionar o fato da Imaculada Conceição com o desígnio salvifico de Deus, significa enlaçar necessariamente com Cristo, que é o ponto focal de tal desígnio. Os textos bíblicos, sobre tudo os paulinos, fazem ressaltar o primado de Cristo em relação a toda a criação (Col 1,15.17; Ef 1,10.21; Jn 1,1-3; Ap 1,8), já sua missão redentora e reconciliadora como cabeça da Igreja (Col 1,18-20; Ef 1,3-14; Rom 8,32-39; Ap 1,5-6), mostrando a solidez das perspectivas exegéticas de F. Prat: “O centro está em Jesus Cristo. Tudo converge para esse ponto, tudo provem daqui e tudo conduz para lá. Cristo é o princípio, o centro e o fim de tudo… Todo o intento de compreender uma passagem qualquer, abstraindo da pessoa de Jesus Cristo terminaria em um seguro fracasso. ” A necessidade de harmonização entre a intuição da fé, no contexto da santidade originária de Maria e a verdade básica da redenção universal operada por Cristo, via claramente Santo Agostinho, oferecendo não a solução, mas sim o contexto teológico no qual insertar o dato mariano. Desde então, dado o peso da autoridade agostiniana, a Imaculada Conceição não se pudera impor à consciência da Igreja mais que a condição de se apresentar como um caso de verdadeira redenção. Com outros términos, a honra do Senhor, primeiro argumento favorável para a Imaculada Conceição, incluía não somente a isenção de Maria de toda a culpa, mas sim, também, antes ainda, o dogma central do cristianismo: Jesus Cristo, único mediador e redentor.
É justo, por tanto, a exigência, advertido também no campo do pecado original e desviada para a mariologia com D. Fernández e A. de Villalmonte, de estabelecer como ponto de partida da teologia da Imaculada Conceição não a Adão ou o pecado, mas sim a Cristo. A prioridade da perspectiva cristológica sobre a amartiológica implica no procedimento ‘a Cristo ad Mariam’, no sentido de que, como afirma K. Rahner, “se pode compreender a Maria só partindo de Cristo”. Se Cristo é o único mediador e redentor do mundo, se na sua morte e ressurreição produziu de uma vez para sempre e irrevogavelmente a reconciliação da humanidade com Deus (2 Co 5,18-21), se segue, que ele no seu mistério pascal é o salvador também de sua mãe. A teologia, elaborada nos séculos cristãos e que desembocou na Ineffabilis Deus, afirma que Maria foi preservada do pecado original ‘em vista dos méritos de Jesus Cristo, Salvador do gênero humano”, e que tem sido, portanto, “redimida do modo mais alto” (sublimiori modo redemptam). A Imaculada Conceição é um caso de redenção antecipada e perfeita, em virtude do valor retroativo do mistério pascal de Cristo e de sua máxima aplicação á Mãe do Senhor. Longe de ser exceção ou negação da universal necessidade de redenção por obra de Cristo, a Imaculada Conceição implica que Maria “está unida na estirpe de Adão com todos os homens que necessitam ser salvados” (LG 53) e tem recebido, em sua radical incapacidade de auto-salvação, a graça redentora mais poderosa que se pode imaginar. Assim, o entendeu e expressou Duns Scoto no argumento do perfeito mediador, que mostra a potência salvífica de Cristo, enquanto que previne do pecado em vez de apagar, uma ver ocorrido. Maria “é a mais grande perdoada; recebeu uma remissão tão plena que a colocou ao resguardo de toda culpa. A Imaculada Conceição é o mais grande perdão de Deus. Séculos e séculos mais tarde, Santa Teresa de Lisieux chegará a ver, como perdão, também a ausência de pecado atual. O inocente é aquele que tem sido perdoado na eternidade dos pecados que não cometerá no tempo, porque o amor divino os tem destruído. A razão última da Imaculada Conceição é o amor gratuito de Deus; e o fundamento próximo da mesma, é a prerrogativa da mãe de Jesus, que histórica e logicamente inclui uma santidade proporcionada à sua união intima com o Filho, sem ser uma exigência iniludível, a ausência de pecado em Maria, desde o primeiro instante foi percebida pelo sentido dos fiéis, como o único dado harmonizável, tanto com a santidade de Cristo como com a pessoa e missão de Maria. É mais que conveniente que aquela que havia de engendrar o Verbo de Deus segundo a natureza humana e acolhê-lo exemplarmente na fé, e inclusive, cooperar com ele na salvação dos homens, estivesse de toda isenta de pecado.
Não se trata de uma questão temporal ou de instantes, mas sim do mistério da predestinação de Maria, porque somente ela, “em virtude de sua missão e por suas qualidades pessoais, está situada exatamente no pondo em que Cristo inaugurava triunfante a definitiva redenção da humanidade. Por isso, o dogma da Imaculada Conceição da Virgem é um capítulo da doutrina mesma da redenção e seu conteúdo constitui a maneira mais perfeita e radical da nossa redenção”. (…)
3 – CRIAÇÃO NA GRAÇA DO ESPÍRITO SANTO

Ainda dentro da diversidade de descrições do acontecimento salvífico, o NT entende fundamentalmente a salvação como “participação que Deus faz de si em Cristo e no Espírito”. Em particular, o Espírito é a suma de todos os efeitos da redenção, porque nele se realiza a comunhão com o Pai e a nova vida em Cristo (Jn 6,63; 7,39; 16,7; 2Co 5,15. 19). Ele é o dom mais importante outro gado pelo Pai e pelo Filho para fazer desaparecer a vida segundo a carne, e é o princípio dinâmico da nova vida na graça, no amor e liberdade filial (Rm 8,1-17). Esta ótica positiva da salvação haveria de ter a precedência também quando se trata da Imaculada Conceição. A Bula Ineffabilis Deus, ainda define o dogma mariano em términos negativos, não ignora, mas sim valoriza o aspecto positivo que pressupõe: a plenitude da inocência e de santidade que se deriva da singular predileção divina faz de Maria uma criatura “adornada dos resplendores da perfeitíssima santidade”. Se é fácil compreender, observa L. Galot, a intenção da Bula pontifícia de definir de modo decisivo o objeto da histórica controvérsia, está apresentação negativa dogma amaina a tenência latina de caracterizar a Maria em relação ao pecado e deve completar com a perspectiva dos padres gregos, mais favoráveis à por de realce a perfeição da Toda santa. Precisamente nesta linha te colocado o Concílio Vaticano II, que apela aos santos padres para apresentar a Maria “imune de toda mancha de pecado e como plasmada pelo Espírito Santo e feita uma nova criatura, enriquecida desde o primeiro instante de sua concepção com os esplendores da santidade de modo singular…” (LG 56) Os padres citados, todos orientais, são Germano de Constantinopla, Anastásio de Antioquia, André de Creta e Sofrônio, que louvam a santidade da cheia de graça. Nesta mesma linha tem-se colocado, entre outros, o teólogo bizantino Nicolás Cabasilas, o qual chama a Maria “nova terra e novo céu… que não herdou nada do antigo fermento…, nova massa e início de uma nova estirpe”.
Por motivos ecuménicos de encontro com os cristãos ortodoxos e por razões de fidelidade ao conceito bíblico de salvação “ devemos ver o mistério de Maria na sua verdadeira dimensão teológica: como um mistério de eleição divina, de santidade, de plenitude de graça e de fidelidade ao plano de Deus. ” Os mesmos motivos levam a estudar a Imaculada em sua relação com o Espirito Santo, o qual se comunicou a Maria desde o começo de sua existência. Nesta perspectiva se situa a cotidiana reflexão de São Maximiliano Kolbe († 1914), que confrontou o significado da Imaculada Conceição, num clima de oração e de consciência do mistério. Sobre a pergunta: “Quem é, Imaculada Conceição? ”, reponde referindo-se ao Espírito Santo, que é “uma concepção não criada, eterna, protótipo de qualquer concepção de vida no universo…, uma concepção santíssima, infinitamente santa, imaculada”. Posto que Maria “está unida de modo inefável com o Espirito Santo, pelo fato de ser sua esposa, se segue que a Imaculada Conceição é o nome daquela, na qual se vive com um amor fecundo em toda a economia sobrenatural”. O Espírito Santo, por conseguinte, “mora nela, vive nela, e isso desde o primeiro instante de sua “existência”; mas isto ocorre de modo tão íntimo e inefável, que leva o Pe. Kolbe a fala r de “quase encarnação” do Espírito Santo na Imaculada. Esta audácia teológica – a diferença da hipótese de L. Boff em relação a união hipostática do Espírito Santo em Maria – se mantem na ortodoxia, já que o Pe. Kolbe tem o cuidado de precisar a terminologia: “Em Jesus existem duas naturezas (a divina e a humana) e uma única pessoa (a divina), no entanto que aqui tem duas naturezas, e dois são também as pessoas, o Espirito Santo e a Imaculada, no entanto, a união da divindade com a humanidade supera qualquer compreensão”.
A Imaculada, enquanto reflexo do Espírito Santo, constitui uma dimensão enriquecida no desenvolvimento teológico: envolve com o tema bíblico do coração novo, com a ‘catarsis’ de Maria, tal como é apresentada pela tradição oriental e ocidental, com a resposta da Virgem em sua vida moral e com a redenção escatológica de Maria atuada pelo Espírito Santo.
Texto traduzido: Pe. Vandemir J. Meister.
S. de Fiores, Nuevo Diccionário de Mariologia. Pag. 927 ss.
SECRETARÍA NACIONAL DO TERÇO DOS HOMENS
Rua José Dias Raposo, 914
Bairro: Ouro Preto, Morro do Peludo
CEP: 53.370-420 – Olinda/PE – Brasil
Fone: (81) 3011-5436, (81) 3439-7066, (81) 99842-1119
Site Oficial: http://www.tercodoshomens.org.br