HISTÓRIA DO TERÇO DOS HOMENS NO BRASIL
Pe. Vandemir J. Meister
Redação ano 07/11/2021.
Indice
1 – O Terço rezado pelos homens na Igreja
2 – No Brasil – homens que rezavam o terço
3 – Novo alvorecer do Terço dos Homens no Brasil
3.1 – O embrião Terço dos Homens no Brasil
3.2 – Semente do Terço dos Homens
3.3 – De uma pequena semente nasce uma grande arvore.
3.4 – Unidade e implantações de Grupos.
3. 5 – Expansão dos grupos do Terço dos Homens Mãe Rainha
3.6 – O nome Terço dos Homens Mãe Rainha
4 – Implantação do Terço dos Homens Mãe Rainha fora do Brasil
1 – O Terço rezado pelos homens na Igreja
O Terço, como ato de piedade, rezado por homens, faz parte da história da espiritualidade da Igreja. Desde os primórdios da devoção ao santo rosário, encontramos monges e leigos iletrados – isto é, que não dominavam a leitura dos salmos – recorrendo às contas para louvar a Deus e a Virgem Maria. No século XIII, essa forma de oração se difunde com especial força através dos missionários dominicanos, que a utilizam como instrumento de evangelização e catequese popular.
Os monges, ao final do dia, costumavam reunir os trabalhadores do campo para um momento de oração comunitária, e o terço se mostrava um meio simples e acessível de envolver a participação de todos. Assim, o rosário se espalhou rapidamente, tornando-se conhecido como o “breviário do leigo”: também aqui se recitavam 150 orações, não salmos, mas louvores àquela que é a grande advogada dos homens no Reino dos Céus, Maria Santíssima. Com o tempo, surgem as Confrarias do Rosário, espaços onde, de modo particular, os homens se reuniam para recitar o terço.
2 – A história do Terço dos Homens no Brasil
A história do Terço dos Homens no Brasil precisa ser compreendida dentro da própria história da Igreja em nosso país. A história eclesial tem a função de resgatar acontecimentos ligados à fé, às estruturas pastorais e à vida do povo de Deus.“Sem o conhecimento dela, nada válido se constrói. Toda a teologia está impregnada de complementos históricos, sem os quais torna-se, sob muitos aspectos, incompreensível.”[1]
É auscultando a história que descobrimos, em diferentes épocas, homens reunindo-se para rezar o terço
No período colonial[2], a Coroa e a Igreja promoviam o batismo e a catequese dos índios, dos portugueses em território brasileiro e dos escravizados, incentivando práticas como rezar o terço, participar da missa e, com o tempo, integrar confrarias leigas. Em muitas regiões, especialmente no litoral e em centros urbanos como Bahia, Rio de Janeiro e Minas Gerais, os escravizados participavam de irmandades do Rosário e dos santos negros – Nossa Senhora do Rosário, São Benedito, entre outros –, onde a reza do rosário ou do terço fazia parte da piedade popular. Era comum haver grupos de escravos, separados de acordo com o sexo, que rezavam o terço promovido por missionários, como forma simples e prática de cativar os homens e transmitir a fé.
Em Goiana, Pernambuco, por volta de 1550, difundiu-se a devoção a Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, dando origem à formação de grupos que rezavam o rosário e que, mais tarde, serão chamados de Terço dos Homens Pretos, alimentando as futuras fundações de irmandades e confrarias no Brasil. Ao longo do século XVII, muitas irmandades sob essa invocação foram fundadas em igrejas do Norte e Nordeste, como a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, em Recife (PE), erigida em 1674, e outras em Belém (PA), ligadas a templos como a Igreja de Nossa Conceição da Praia.
Segundo Serafim Leite, em 1586 os jesuítas fundaram diversas confrarias do Rosário entre os escravos dos engenhos, “com o fim de promoverem a piedade e a instrução religiosa de índios e negros”[3].. Já no século XVII, é documentada a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, de 1639, que incentivava particularmente os homens a rezar o terço de maneira organizada e frequente.
Também no interior de Minas Gerais, na época do Brasil-colônia, existiram grupos de homens que rezavam o terço, normalmente ao final do dia. Rezavam juntos e, em seguida, partilhavam os acontecimentos da vida e da cidade. Nesse contexto, as Confrarias do Rosário, além de fomentar a oração, se tornaram espaços importantes de proteção e defesa dos direitos daqueles que a elas pertenciam. Ao longo da história, sempre encontramos, aqui e ali, grupos isolados de homens reunidos em torno do terço.
No último século, por exemplo, se registram iniciativas em Itabi (SE), motivadas pelo Frei Peregrino, e em Santa Maria (RS), ligadas à figura do Venerável João Luiz Pozzobon. Eram experiências fecundas, mas locais, que não chegaram a se expandir amplamente para outras regiões.
3 – Novo alvorecer do Terço dos Homens no Brasil
Na atualidade, a história do terço na Igreja conhece um novo alvorecer com grupos de homens rezando o terço de forma organizada e capilarizada. Multiplicam-se, em todo o país, os grupos de homens que se reúnem regularmente para essa devoção. A originalidade desse novo momento nasce no Nordeste brasileiro, mais especificamente em Jaboatão dos Guararapes e Olinda, em Pernambuco. Ali surgem dois grupos que se complementam e que, assumindo o nome de Terço dos Homens Mãe Rainha, dão início à expansão do que hoje conhecemos como Terço dos Homens em todo o Brasil.
O “novo” em relação às experiências anteriores está na expansão missionária: esses grupos assumem conscientemente a missão de “implantar novos grupos” nas paróquias e comunidades. É um fenômeno muito original das últimas três décadas. A expansão – chamada, no próprio meio, de “implantação de Grupos do Terço dos Homens Mãe Rainha” – toma a forma de um movimento de vida, que se espalha naturalmente pela Igreja, respondendo às necessidades espirituais dos participantes. Essa expansão é uma das grandes originalidades deste tempo mariano que a Igreja vive.
3.1 – O embrião do Terço dos Homens
O embrião do atual Terço dos Homens no Brasil tem sua origem no Nordeste, na década de 1990, profundamente ligado à espiritualidade de Schoenstatt e à devoção à Mãe e Rainha.
Historicamente, podemos afirmar que a atual irrupção de crescimento dos grupos tem como marco o dia 5 de março de 1997.
O contexto imediato remonta a um Congresso da Mãe Rainha, realizado em Igarassu (PE), em 1996, organizado por Ir. Renate Becker e Pe. Miguel Lencastre, com o objetivo de recolher experiências missionárias do nordeste brasileiro ligadas à Campanha da Mãe Peregrina.
Neste Congresso participava a Sra. Oneida Araújo da Silva, procedente de Jaboatão dos Guararapes/PE, onde era coordenadora da Campanha da Mãe Peregrina.
Neste Congresso a Sra. Oneida escuta o testemunho do Sr. Jurandir da Rocha Pereira, representante do Movimento da Mãe Rainha de Maceió/AL, que conta as ações missionárias realizadas na diocese de Maceió. Entre os relatos, o Sr. Jurandir comentou que as Missionárias da Campanha da Mãe Peregrina se reuniam junto à Casa Mãe Rainha, na paróquia de Nossa Senhora de Lurdes, para fazer algumas reuniões das coordenadoras missionárias da Campanha da Mãe Peregrina em preparação à uma missão que queriam fazer em alguns bairros de Maceió. Comenta o Sr. Jurandir: “Os esposos destas senhoras ficavam na rua esperando terminar a reunião conversando. Um deles teve a ideia, de enquanto as esposas faziam a reunião, rezar o terço. Assim, estes homens rezavam o terço na rua, embaixo de uma árvore frondosa, enquanto as esposas planejavam as atividades da Campanha da Mãe Peregrina.”
Esta iniciativa debaixo da árvore, rezar o terço perdurou por pouco tempo, junto à Casa Mãe Rainha. Durou enquanto duraram as reuniões de preparação da ação missionária.
Mas a iniciativa não se perdeu, graças à fé e ao olhar perspicaz desta senhora pernambucana, coordenadora da Campanha da Mãe Peregrina em Jaboatão dos Guararapes, algo vai germinar.
Neste mesmo Congresso da Mãe Rainha em Igarassu/PE, a Sra. Oneida Araújo da Silva se aproximou do Sr. Jurandir para saber melhor sobre a história desses homens que rezavam o terço na rua, diante da Casa Mãe Rainha.
3.2 – Semente do Terço dos Homens
De coisas insignificantes, muitas vezes, Deus cria grandes acontecimentos usando os instrumentos ao seu modo. As sementes são lançadas, dependerá em que terra há de cair a semente!
A história dos homens rezando o terço na rua deu muitas voltas no coração desta aguerrida senhora. De volta em sua cidade de origem, Jaboatão dos Guararapes, Pernambuco, onde era coordenadora da Campanha da Mãe Peregrina desde 1991, a Sra. Oneira buscava um caminho para que os homens rezassem o terço na capela próximo à sua casa.
Primeiro leva a ideia e apresenta ao seu pároco, Padre Américo Vasconcelos da Paróquia de Santo Amaro em Jaboatão dos Guararapes/PE, que a autorizou a dar seguimento no seu anseio de organizar o grupo de homens para rezar o terço.
Em seguida, a senhora Oneida, procura o Sr. Antônio José dos Santos, missionários da Mãe Peregrina no comércio do bairro e conhecido por seu estilo apostólico e de oração na capela do bairro, e o convida para rezar o terço com os homens. O Sr. Santos, como era conhecido, tinha o costume de rezar sozinho o terço na capela Nossa Senhora do Livramento, no espaço dedicado à Mãe Rainha.
A capela de Nossa Senhora do Livramento frequentado por ambos, tinha sido instituido o Santuário Paroquial da Mãe Rainha, para apoiar os trabalhos missionários da Campanha da Mãe Peregrina. Esta capela faz parte da atual Paróquia de Santo Amaro em Jaboatão dos Guararapes.
Conta a Sra. Oneida que o Sr. Santos não se entusiasmou com a proposta de formar um grupo de homens para rezar o Terço. Ela insistiu algumas vezes, mas o Sr. Santos não iniciava. Passados quase 1 ano, depois da primeira investida, segundo comentários da Sra. Oneida, ela resolveu tomar outra iniciativa e provocar novamente o Sr. Santos abordando-o:
“Santos, você convida os teus amigos homens perto da tua casa, e eu convido os homens que conheço lá embaixo no bairro, e vamos começar esse grupo de homens para rezar o terço.”[4]
No dia 05 de março de 1997, ao anoitecer, a Sra. Oneida apareceu com um pequeno grupo de homens e também o Sr. Santos com mais alguns amigos, um total de 15 homens[5], na Capela Nossa Senhora do Livramento. A Sra. Oneida chegou na capela e apresentou os homens ao Sr. Santos e disse: “Agora é com você Santos.”[6] E voltou para sua casa, deixando-os sozinhos.
O Sr. Santos começou a rezar o terço com este primeiro contingente de homens; no final os convidou para voltarem na semana seguinte no mesmo dia e horário para rezarem o Terço. No final do Terço, como o Sr. Santos tinha o costume de anotar suas atividades pastorais da Campanha da Mãe Peregrina no comércio, anotou o nome de todos os presentes deste primeiro dia da oração do terço.
O entusiasmo do Sr. Santos pela quantidade de homens que apareceram pela primeira vez, anima o grupo a perseverar e voltar na semana seguinte. Com isso o Sr. Santos foi fomentando os participantes que convidassem outros homens para aumentar o grupo. Manteve fielmente no dia e horário aquele compromisso de rezar o Terço diante do quadro da Mãe Rainha no Santuário Paroquial na Capela Nossa Senhora do Livramento.
Assim nasce a semente do primeiro grupo do Terço dos Homens sob a proteção da Mãe e Rainha.
O entusiasmo de Santos, somado ao número de participantes, anima o grupo a perseverar, convidando novos homens. Mantendo fielmente o compromisso semanal diante do quadro da Mãe Rainha, nasce o primeiro grupo do Terço dos Homens sob a proteção da Mãe e Rainha.
Esse grupo inicial de 15 homens[7] vai crescendo pouco a pouco, rezando semanalmente e assumindo algumas atividades pastorais. Era costume, por exemplo, que na Festa da Mãe Rainha, em 18 de outubro, no Santuário de Olinda, o andor da imagem, no trajeto entre a paróquia São Lucas e o Santuário, fosse carregado por esses homens, que já usavam camisetas alusivas ao Terço Mãe Rainha. Tanto a recitação do terço na capela quanto a presença ativa em procissões e celebrações davam visibilidade a esse grupo organizado.
3.3 – De uma pequena semente nasce uma grande arvore.
“Um pequeno grão de mostarda que, ao crescer, torna-se uma grande árvore onde as aves fazem ninhos.” Mt 13,31.
A semente lançada em Jaboatão é levada a “terras mais fecundas” permitindo assim o crescimento que hoje conhecemos; a grande expansão do Terço dos Homens Mãe Rainha no território brasileiro e outros que nasceram inspirados nele.
Um passo decisivo nessa expansão foi o contato do padre schoenstattiano José Pontes, assistente do Movimento da Mãe Rainha, quando tomou contato com a realidade desta capela, onde o primeiro grupo de homens rezava o terço.
Sob a insistência da Sra. Oneida Araújo o padre foi levado de Kombi até o a capela Nossa Senhora do Livramento para ver de perto este primeiro grupo de homens rezando o terço.
A Sra. Oneida narra como foi o acontecimento:
“Eu tinha convidado algumas vezes o Pe. Pontes para vir aqui para nos falar da Mãe Rainha. Mas ele não vinha. Um dia pequei o telefone e disse que ia buscá-lo para vir para cá, pois queria mostrar algo interessante que estava acontecendo na Capela Nossa Senhora do Livramento – um grupo de homens rezando o terço todas as semanas. Combinei com ele o dia, pois tinha que ser o dia que os homens rezavam o terço. Aluguei uma Kombi, pois não tinha carro e ninguém que fosse buscá-lo. Foi eu e uma outra missionária da Mãe Rainha comigo. Fomos de Kombi para Olinda, buscar o padre no Santuário da Mãe Rainha. Voltemos de Kombi e paramos lá embaixo. Saímos da Kombi e fomos subindo e rezando o terço. Quando chegamos o padre se maravilhou no que viu; aqueles homens rezando o terço.”[8]
O Padre José Pontes achou esta iniciativa interessante e intuiu neste acontecimento algo grandioso para a execução do Ideal do Santuário da Mãe Rainha em Olinda.
O Santuário onde o padre atuava pastoralmente, cujo ideal é: “Tabor da Nova Evangelização”, pensado no contexto do Jubileu dos 500 anos de Evangelização das Américas, ano de 1992 foi construído. A intenção era que o Santuário se tornasse uma força mariana de reevangelização para o Nordeste brasileiro. Ninguém imaginava que uma forma privilegiada dessa nova evangelização seria justamente a reza do terço pelos homens.
O padre convida então o senhor Antônio Medeiros Costa Filho, pertencente à Liga de Famílias de Schoenstatt, para implantar no Santuário da Mãe Rainha, em Olinda, o grupo de oração do Terço dos Homens, semelhando o que ele tinha conhecido Jaboatão dos Guararapes. Cerca de oito meses depois do início em Jaboatão, Medeiros convida um pequeno grupo de homens[9] e começam a rezar uma vez ao mês, ao lado das ruinas do antigo muro, em frente ao Santuário da Mãe Rainha em Olinda.
Em maio de 1998, mês mariano, o senhor Medeiros, coordenador deste primeiro grupo no Santuário da Mãe Rainha, propõe um “Capital de Graças” para os homens; presente a ser oferecido à Mãe Rainha[10]. A proposta do “Capital de Graças” foi aceito pelos poucos participantes.
- Rezar o Terço no mês de maio semanalmente e no mesmo horário.
- Cada homem convida outro homem para vir na semana seguinte.
A Mãe de Deus abençoa esta iniciativa ajudando os homens a realizarem o ideal deste Santuário: Tabor da Nova Evangelização.
O senhor Carlos Alves, coordenador do deste grupo depois de Medeiros testemunha que:
“Quando cheguei no Santuário da Mãe Rainha tinha um grupo pequeno de homens rezando o Terço. Eu encontrei interessante essa iniciativa, me identifiquei e comecei a frequentar. No mês de maio começamos a rezar semanalmente e o Valmy ficou para ir contando quantos homens iam chegando por semana no grupo no Santuário. No final do mês o Valmy chegou a mim emocionado dizendo que tínhamos alcançado o número de 100 homens. Foi uma emoção muito grande para nós. Era para rezar semanalmente somente no mês de maio e depois voltar uma vez ao mês em junho. Devido as multiplicações, ficou assim, semanalmente.”[11]
A experiência foi tão forte que decidiram manter o encontro semanal, em vez de voltar à frequência mensal. Como não se lembravam exatamente o dia em que o grupo começou, convencionaram a data de 30 de maio de 1998 como a data de fundação do Terço dos Homens no Santuário da Mãe Rainha, por reconhecerem ali um momento especial da ação da Mãe de Deus.
Carlos Alves comenta que:
“Não temos a data exata quando começou, mas passado um tempo depois desse acontecimento de maio, nós nos perguntamos qual era o nosso dia de fundação e ninguém lembrava; assim que decidimos pegar essa data como referência, porque para nós foi um lindo testemunho da Mãe Rainha.”[12]
3. 4 – Unidade e implantações de Grupos
Os homens que coordenavam o grupo no Santuário perceberam, com o tempo, que precisavam de um material de apoio com mais orações e uma mística própria de espiritualidade como estavam vivenciando no Santuário da Mãe Rainha, pois muitos sabiam poucas orações marianas.
Reuniram-se e elaboraram um manual do Terço que ajudaria tanto na oração semanal quanto na implantação de novos grupos nas paróquias e capelas. Nesse manual, inspirados na espiritualidade de Schoenstatt, criaram um pequeno ritual que enriquecia o encontro do Terço com elementos de consagração, músicas, hino do terço, estrutura diocesana, vínculos e envio, indo além da simples recitação das dezenas. O Manual se tornou um elemento original do Terço dos Homens Mãe Rainha e passou a dar unidade aos diversos grupos que surgiam nas implantações[13].
Posteriormente um bispo comentou: “Esse manual para os homens do Terço é como o missal para os padres e bispos: ele dá unidade celebrativa”[14]
Comenta Carlos Alves :
“Não lembro bem, quanto tempo depois, nos reunimos e elaboramos um manual do Terço para que os homens pudessem acompanhar todos os dias a reza do Terço com a espiritualidade da Mãe Rainha; pois nós estávamos rezando dentro da sua casa. O manual foi aprovado pelo Pe. José Pontes e também o Pe. Miguel Lencastre.”[15]
Os elementos básicos e mais importantes da mística do Terço dos Homens já estavam sendo consolidados no nascimento destes dois grupos, um complementando o outro.
3. 5 – Expansão dos grupos do Terço dos Homens Mãe Rainha
Com toda a riqueza já consolidada em Jaboatão dos Guararapes e no Santuário da Mãe Rainha, em Olinda, os homens compreenderam que essa graça não podia ficar “aprisionada” apenas ali. Impulsionados por inúmeros testemunhos de transformação de vida, discerniram que era hora de levar a experiência para outras paróquias.
A coordenação do grupo que se reunia no Santuário da Mãe Rainha decidiu, então, iniciar a implantação de novos grupos nas paróquias vizinhas e nas capelas, tendo o Manual como instrumento de formação e de unidade. Com o Manual em mãos, partiram para o trabalho missionário, conscientes de que aquele livrinho seria uma peça-chave no processo de expansão. Ele não só oferecia um roteiro comum de oração, como também ajudava os homens a aprender as orações e a rezá-las juntos, em uníssono, fortalecendo a identidade e a comunhão entre os grupos.
Entre as metas assumidas pelo Pe. Miguel Lencastre, então reitor do Santuário, e por Carlos Alves, primeiro coordenador do Terço dos Homens Mãe Rainha, estava justamente a de levar essa iniciativa – tão fecunda no Santuário – para outros estados do Nordeste, onde o padre mantinha contatos pastorais. Inicia-se, assim, um movimento de expansão para outras cidades e regiões do Brasil.
Nas viagens pastorais de Pe. Miguel Lencastre e Carlos Alves, a grande novidade apresentada era a implantação de grupos de homens rezando o terço nas paróquias, capelas e dioceses de diversos estados nordestinos. As capitais passaram a fazer parte da estratégia de expansão: Recife, João Pessoa, Salvador, Maceió, Natal e, a partir delas, o interior de cada estado, sempre com a proposta de formar Grupos de Oração do Terço dos Homens, conhecidos pela sigla GOTHs.
Esse processo de implantação não foi isento de dificuldades. Muitos padres e bispos não acreditavam que homens se reuniriam com constância para rezar o terço e, por isso, nem sempre facilitavam espaço nas paróquias para a formação dos grupos. Aos poucos, porém, o testemunho de comunidades onde o Terço dos Homens estava produzindo frutos – conversão, retorno à vida sacramental, reconciliação familiar – foi abrindo portas, e a experiência se espalhou por várias dioceses e estados brasileiros.
3.6 – O nome Terço dos Homens Mãe Rainha
O Espírito Santo conduz as obras do Reino. Percebemos que o Terço dos Homens não nasce de um projeto pastoral refletido sobre a mesa e buscado formas e metas de aplicação. O nome é um exemplo vivo dessa realidade, foi tomando forma com a vida e o tempo.
No início era os homens que rezam o terço, depois passou para terço dos homens e ao se espalhar através das implantações nas paróquias e capelas recebeu o nome de Grupo de Oração Terço dos Homens, tendo como sigla GOTHs.
Com o tempo, percebeu-se que essa nomenclatura gerava confusão com os grupos de oração da Renovação Carismática Católica, que também usam essa expressão, e, além disso, não destacava com clareza a fonte espiritual de onde brotara o movimento.
“ Devido à necessidade da identificação com a espiritualidade de onde procedeu a fecundidade do Terço dos Homens e para evitar confusão de nomes com outros grupos de oração existentes na Igreja, a Coordenação Nacional do Terço dos Homens substituiu pelo nome de Terço dos Homens Mãe Rainha, em março de 2007, durante o Simpósio Mariológico em Belém do Pará, em preparação à Vª Conferência do CELAM e da vinda do Papa Bento XVI à Aparecida do Norte. A partir desta data os grupos assumiram este nome.” [16]
Por esse motivo, a já constituída Coordenação Nacional, juntamente com os Assessores Espirituais decidiram, em março de 2007, durante o Simpósio Mariológico realizado em Belém do Pará, adotar o nome Terço dos Homens Mãe Rainha (THMR). A partir dessa data, os grupos passaram a assumir oficialmente essa designação, embora ainda hoje seja possível encontrar alguns grupos com antiga sigla denominativa: GOTHs.
4. – Implantação do Terço dos Homens Mãe Rainha fora do Brasil.
O movimento do Terço dos Homens Mãe Rainha também ultrapassou as fronteiras do Brasil. Em diversos países, a Igreja vive um novo “advento mariano” com o surgimento de grupos de terço, muitos deles sob o título de Mãe Rainha. Em países sul-americanos como Chile, Paraguai e Argentina, existem grupos do Terço dos Homens que têm a Mãe Rainha como padroeira. No Chile, por exemplo, os grupos são conhecidos como “Los Madrugadores”: homens que se levantam à primeira hora do dia para rezar o terço e, em seguida, vão ao trabalho; esse movimento começou em 1989, em Rancagua, e tem crescido em todo o país. No Paraguai, os grupos são chamados “Rosario de los Hombres Valientes”, nascidos em 4 de dezembro de 2012, também em forte expansão.
Além disso, há grupos vinculados à Mãe Rainha em vários outros países, muitas vezes surgidos a partir de brasileiros que levaram a experiência de ter participado de um grupo do Terço dos Homens Mãe Rainha no Brasil: em Moçambique (Tete), na Holanda (Amsterdã), em Portugal (Lisboa), no Japão (Hamamatsu, na diocese de Tóquio), no Canadá, na Itália, entre outros lugares.
Autor: Pe. Vandemir Jozoé Meister.
Redação ano 07/11/2021.
[1] Rubert, Arlindo. A Igreja no Brasil. Origem e desenvolvimento. Vol 1. Edição 1977. Pallotti. Pág. 15
[2] O período colonial no Brasil estendeu-se de 1500 a 1822, iniciando com a chegada dos portugueses e finalizando com a Independência.
[3] LEITE, Serafim. História da Companhia de Jesus no Brasil. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1938, Vol. II, pp. 340-341.
[4] Testemunho em áudio dado pela Oneida Araújo da Silva ao Pe. Vandemir J. Meister em 20/04/2020.
[5] Existe a folha onde assinaram todo os presentes, com isso assegurando a exatidão do fato histórico.
[6] Testemunhado no áudio da Sra. Oneida Araújo da Silva.
[7] Ivan José da Silva, Amaro Bezerra da Silva, José da Costa Silva, Ivanildo Cabral Gomes, Iran Monteiro da Silva, João Galdino Filho Silva, Francisco João Santos, José Felizardo Muniz, Rivaldo Bezerra da Silva, Antonio José dos Santos, Sebastião Gomes da Silva, José Damião da Silva, José Luiz de Souza, Rivaldo Batista Alburquerque e Geraldo de Oliveira Ferreira.
[8] Idem. Oneida Araújo da Silva.
[9] Neste primeiro grupo liderado pelo Sr. Medeiros estavam também Valmy, Sr. João, Francisco, Nelson, Marcos Filinto e Jairo, comenta o Pe. Miguel Lencastre.
[10] Capital de Graças é uma expressão técnica da pedagogia da Espiritualidade de Schoenstatt de apresentar oferecimento de atitudes, esforços, sacrifícios, etc., a Deus.
[11] Testemunho em áudio fornecido pelo Sr. Carlos Alves ao Pe. Vandemir J. Meister.
[12] Idem. Carlos Alves.
[13] Implantações: nome usado na criação de novos grupos, dando o sentido de que este grupo que inicia tem uma fonte originária que todos os grupos dela bebem.
[14] Dom José Carlos Sobrinho, Arcebispo de Recife de 1985 a 2009.
[15] Idem. Carlos Alves.
[16] Cf. Orientações Gerais e Pastorais para o Terço dos Homens. Ed. Patris Brasil, 2019, pág. 14.