Em diálogo com a vida, herói hoje!

Em diálogo com a Vida, Heróis de Hoje!

Pe. Vandemir Jozoé Meister

São Paulo, 26/02/2026

O Diálogo com a Vida na Atitude Heroica de João Luiz Pozzobon

Introdução: Um Chamado à Santidade Heroica em Tempos de Vazio

A Família de Schoenstatt do Brasil, ao propor o lema “Em diálogo com a vida, Heróis de Hoje” para o biênio 2025-2026, não apenas oferece uma linha de ação, mas articula uma resposta profética aos desafios mais profundos da sociedade contemporânea.

Este lema, nascido da escuta atenta aos sinais dos tempos e às inquietações que atravessam nossa realidade social, convoca cada membro da família schoenstatiana a uma atitude firme, coerente e perseverante diante das múltiplas crises que caracterizam nosso tempo. Com um acurado olhar na Fé Prática na Divina Providência superar os desafios hodiernos.

No centro desta proposta está a figura luminosa do Venerável Diácono João Luiz Pozzobon, cuja vida testemunha uma santidade missionária capaz de integrar o espiritual e o concreto, o transcendente e o cotidiano, a oração e o serviço. Pozzobon emerge como modelo de heroísmo autêntico, não no sentido épico ou extraordinário das narrativas mitológicas, mas no sentido evangélico da fidelidade diária, da doação generosa e da perseverança incansável na missão recebida.

Parte I: O Diagnóstico da Sociedade Contemporânea

A Era do Vazio: O Individualismo Narcisista de Lipovetsky

O filósofo francês Gilles Lipovetsky, em sua obra “A Era do Vazio” (1983), oferece um diagnóstico penetrante da sociedade pós-moderna[1]. Segundo Lipovetsky, vivemos em uma cultura dominada pelo narcisismo, caracterizada não pelo narcisismo clássico de autocontemplação amorosa, mas por um narcisismo de vazio, de indiferença, de busca obsessiva por satisfação pessoal imediata sem compromisso com valores duradouros.

Este narcisismo contemporâneo manifesta-se em múltiplas dimensões da vida social. No plano das relações interpessoais, observa-se uma tendência crescente à superficialidade, à instrumentalização do outro em função das próprias necessidades, à incapacidade de estabelecer vínculos profundos e duradouros. As pessoas relacionam-se cada vez mais em termos de utilidade, de satisfação momentânea, de benefício imediato, sem a disposição para o compromisso que exige paciência, renúncia e perseverança.

No plano dos valores, Lipovetsky identifica o que chama de “personalização”, um processo pelo qual os grandes ideais coletivos, as narrativas totalizantes, as causas comuns são substituídas por uma busca individualista de bem-estar, realização pessoal e autenticidade subjetiva[1]. Não se trata de um individualismo afirmativo, que constrói projetos de vida sólidos e significativos, mas de um individualismo frágil, oscilante, marcado pela incerteza e pela necessidade constante de validação externa.

O consumismo aparece como manifestação privilegiada desta era do vazio. Não se consome apenas bens materiais, mas também valores, ideias, relações, experiências – tudo se torna objeto de consumo descartável. A lógica do mercado permeia todas as esferas da existência, transformando até mesmo as dimensões mais íntimas e sagradas da vida em commodities a serem adquiridas, usadas e descartadas conforme as flutuações do desejo.

Esta sociedade narcisista produz, paradoxalmente, não indivíduos plenos e autossuficientes, mas sujeitos fragmentados, ansiosos, atormentados pela necessidade de performance constante, pela insegurança ontológica, pelo medo de não ser suficiente. O vazio interior torna-se a condição existencial predominante, preenchido momentaneamente por satisfações efêmeras que logo se revelam insuficientes, gerando um ciclo vicioso de busca sem fim.

A Modernidade Líquida: A Fragilidade dos Vínculos analizada por Bauman

O sociólogo polonês Zygmunt Bauman complementa e aprofunda este diagnóstico com o conceito de “modernidade líquida”[2]. Para Bauman, vivemos a passagem de uma modernidade “sólida”, caracterizada por instituições estáveis, identidades fixas e compromissos duradouros, para uma modernidade “líquida“, marcada pela fluidez, pela transitoriedade, pela volatilidade de todas as estruturas sociais.

Na modernidade líquida, os vínculos humanos tornam-se frágeis, superficiais, constantemente renegociáveis. Bauman fala de “relações de bolso“, relações que se pode guardar e tirar conforme a conveniência, sem o peso do compromisso permanente[2]. O casamento, a amizade, os laços comunitários, tudo se torna negociável, provisório, passível de descarte quando deixa de satisfazer ou quando surge algo aparentemente melhor.

Esta liquidez afeta também a construção das identidades. Se na modernidade sólida as identidades eram em grande medida herdadas e estáveis (profissão, classe social, religião, nacionalidade), na modernidade líquida as identidades tornam-se projetos individuais, constantemente revisados, redefinidos, adaptados às circunstâncias cambiantes. Esta flexibilidade, que aparentemente oferece maior liberdade, produz na verdade uma angústia identitária profunda, uma insegurança existencial crônica.

Bauman destaca ainda o fenômeno do que chama de “amor líquido“, relações afetivas caracterizadas pela busca de “conexões” em vez de “relacionamentos“[2]. Conexões são rápidas, fáceis de estabelecer e de desfazer, não exigem investimento emocional profundo nem compromisso duradouro. Relacionamentos, por outro lado, exigem tempo, cultivo, trabalho constante, capacidade de perdão e recomeço – algo cada vez mais raro em nossa cultura da instantaneidade.

A sociedade líquida produz, assim, indivíduos simultaneamente hiperconectados e profundamente solitários, com milhares de “amigos” virtuais mas poucos vínculos reais de sustenção mútua. A solidão, a ansiedade e a depressão tornam-se epidemias contemporâneas, sintomas de uma crise civilizacional mais profunda.

Elementos Alienantes da Sociedade Atual

Articulando as análises de Lipovetsky e Bauman, podemos identificar alguns elementos particularmente alienantes da sociedade contemporânea que desafiam a proposta de uma vida heroica e comprometida:

  • O consumismo desenfreado: A redução de todas as dimensões da vida à lógica do consumo, transformando até mesmo experiências espirituais, relações humanas e identidades pessoais em produtos a serem adquiridos no mercado. Este consumismo não apenas degrada o meio ambiente e perpetua injustiças sociais, mas também esvazia a existência de sentido transcendente.
  • A cultura do descarte: Intimamente ligada ao consumismo, esta cultura promove a obsolescência programada ( fabricação de produtos com uma vida útil intencionalmente limitada, ou seja, para durarem menos do que deveriam. ) não apenas de objetos, mas de pessoas, relações e valores. O que não mais satisfaz ou corresponde às expectativas é simplesmente descartado, sem processo de elaboração, luto ou aprendizado.
  • A hiperindividualização: A exacerbação do individualismo que fragmenta o tecido social, enfraquece as solidariedades coletivas e reduz a capacidade de ação política transformadora. Cada indivíduo torna-se uma ilha, responsável isoladamente por sua própria felicidade e sucesso, sem referência a um bem comum. Ex.: “therians” — uma identidade não-humana ligada ao mundo animal – therianthropy/therian (animal selvagem, besta) anthropo/homem.
  • A tirania da performance: A pressão constante para produzir, otimizar, melhorar, estar à altura das expectativas sociais. Esta tirania gera esgotamento, ansiedade e sentimento crônico de inadequação, especialmente intensificado pelas redes sociais onde todos aparentemente vivem vidas perfeitas.
  • A indiferença ética: O enfraquecimento de compromissos éticos sólidos, substituídos por uma ética situacional, relativista, na qual “tudo depende” e não há critérios objetivos para discernir o bem e o mal, o justo e o injusto.
  • A polarização e fragmentação social: Paradoxalmente, a mesma sociedade que promove o individualismo também produz tribalismos identitários agressivos, incapacidade de diálogo, demonização do diferente e polarização política extrema, como bem observa o lema de Schoenstatt ao mencionar eventos que “polarizam ainda mais a sociedade”.

Parte II: João Luiz Pozzobon – Um Herói Contra-Cultural

Quem foi João Luiz Pozzobon

João Luiz Pozzobon nasceu em 12 de agosto de 1904, em Ribeirão, município de Santa Maria, Rio Grande do Sul. Filho de imigrantes italianos, cresceu em uma família simples de trabalhadores rurais, marcada pela fé católica e pela devoção mariana[3]. Desde jovem, João Luiz distinguiu-se por sua profunda vida espiritual mariana e seu zelo apostólico.

Na década 1940/50 , João Luiz conheceu o Movimento de Schoenstatt e a devoção à Mãe Três Vezes Admirável. Este encontro marcaria definitivamente sua vida e missão. Sentindo-se chamado a levar a mensagem de Schoenstatt e a devoção mariana às famílias, iniciou em 1950 o que viria a se tornar a grandiosa Campanha da Mãe Peregrina[3].

A Campanha consistia em levar uma imagem da Mãe Três Vezes Admirável de casa em casa, visitando famílias, rezando com elas, evangelizando, atendendo necessidades espirituais e  se possível materiais. Durante 35 anos, até sua morte em 1985, o venerável João Luiz Pozzobon percorreu incansavelmente cidades e vilarejos, sempre a pé ou utilizando transportes precários, levando a presença maternal da Mãe Rainha aos lares, escolas, presídios, hospitais, etc.

Em 1972, aos 68 anos de idade, João Luiz foi ordenado Diácono Permanente, o que poderíamos dizer: um reconhecimento oficial da Igreja ao seu ministério já exercido há décadas. A ordenação diaconal conferiu ainda maior dimensão eclesial ao seu apostolado.

João Luiz Pozzobon faleceu em 6 de junho de 1985, aos 80 anos.

A Atitude Heroica: Características do Heroísmo de Pozzobon

O que fez de João Luiz Pozzobon um “herói”?

Certamente não foi a busca por reconhecimento, poder ou glória pessoal – valores narcisistas da sociedade contemporânea. O heroísmo de Pozzobon manifesta-se em características diametralmente opostas aos elementos alienantes descritos por Lipovetsky e Bauman:

  • Atitude firme e coerente: Em contraste com a liquidez e volatilidade da sociedade contemporânea, Pozzobon viveu uma coerência radical entre fé professada e vida concreta. Sua opção pela Campanha da Mãe Peregrina não foi um projeto temporário ou experimental, mas um compromisso de vida inteira, mantido com fidelidade inabalável durante 35 anos, enfrentando dificuldades, incompreensões, cansaço e adversidades climáticas.
  • Perseverança heroica: Contra a cultura do descarte e da satisfação imediata, Pozzobon encarnou a perseverança, virtude esquecida na contemporaneidade. Perseverou na oração diária, nas caminhadas longas sob sol e chuva, nas visitas casa por casa, na confiança na Providência Divina mesmo diante de recursos materiais escassos. Esta perseverança não era teimosia obstinada, mas fruto de uma convicção profunda e de um amor que não esmorece.
  • Doação generosa: Enquanto a sociedade narcisista volta-se obsessivamente para si mesma, Pozzobon viveu radicalmente a lógica da doação. Doou seu tempo, suas energias, sua saúde, sua vida inteira ao serviço do Reino de Deus e à evangelização das famílias. Não buscou acumular bens, construir patrimônio pessoal ou garantir segurança material, mas confiou totalmente na Providência.
  • Vínculos sólidos e duradouros: Contra a fragmentação das relações líquidas, Pozzobon estabeleceu vínculos profundos e transformadores. Não apenas visitava as famílias momentaneamente, mas cultivava relacionamentos duradouros, acompanhava processos de conversão, mantinha correspondência, voltava para verificar o crescimento espiritual. Sua relação com cada família não era uma “conexão” descartável, mas um vínculo espiritual permanente.
  • Integração do espiritual e do material: Pozzobon superou a falsa dicotomia entre espiritualidade e vida concreta. Ao visitar as famílias, não apenas rezava e evangelizava, mas também se preocupava com suas necessidades materiais, ajudava nos trabalhos, aconselhava em questões práticas, promovia a dignidade humana integral. Sua santidade não era desencarnada ou angelista, mas profundamente inserida na realidade humana concreta.
  • Humildade e simplicidade: Em contraste com a cultura da performance e da ostentação, Pozzobon viveu na mais absoluta simplicidade. Não possuía nada além do essencial, não buscava reconhecimento ou títulos, contentava-se com as condições mais precárias de viagem e hospedagem. Sua humildade não era falsa modéstia, mas verdadeira consciência de ser instrumento nas mãos de Deus.
  • Fidelidade à Igreja: Contra o individualismo religioso contemporâneo, Pozzobon viveu profunda comunhão eclesial. Sua devoção mariana e seu apostolado sempre estiveram enraizados na obediência à Igreja, na participação sacramental, no respeito à hierarquia. Não era um místico isolado ou um profeta auto-referenciado, mas um filho obediente da Igreja.

Pozzobon: Solidez na Liquidez, Plenitude no Vazio

A vida de João Luiz Pozzobon representa, portanto, uma contra-proposta radical aos paradigmas da sociedade contemporânea. Onde Lipovetsky identifica vazio, Pozzobon oferece plenitude de sentido enraizada na Aliança de Amor. Onde Bauman diagnostica liquidez, Pozzobon testemunha solidez de compromissos fundamentados na fé.

Esta contra-proposta não é meramente reacionária ou nostálgica. Pozzobon não viveu numa sociedade pré-moderna idealizada, mas enfrentou os desafios concretos de seu tempo – pobreza, secularização crescente, transformações sociais aceleradas. Sua resposta não foi a fuga para um passado idealizado, mas a criatividade missionária de quem dialoga com a realidade à luz de uma convicção profunda.

O Pe. José Kentenich, fundador do Movimento de Schoenstatt, ao conhecer a obra de Pozzobon, exclamou profeticamente: “Vejam vocês como, no apostolado do senhor Pozzobon, todas as forças fundamentais de Schoenstatt se tornam eficazes”. Homem e mulher em casamento

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Esta frase sintetiza o paradoxo evangélico do heroísmo autêntico: não se trata de grandeza segundo os critérios mundanos de poder, riqueza ou fama, mas da grandeza da doação humilde e perseverante que Deus utiliza para transformar o mundo.

Parte III: O Lema “Em diálogo com vida, Heróis de Hoje” – Proposta para a Família de Schoenstatt

O Diálogo com a Vida: Fundamento Carismático

O lema proposto pela Central Nacional de Schoenstatt para o biênio 2025-2026 articula-se em torno do conceito de “diálogo com a vida”. Este conceito não é casual, mas profundamente enraizado no carisma schoenstatiano e na pedagogia do Pe. Kentenich.

Dialogar com a vida significa, em primeiro lugar, olhar atentamente a realidade concreta, discernir os sinais dos tempos, identificar as necessidades e desafios da época. Não é uma espiritualidade de fuga ou alienação, mas de encarnação, de inserção responsável no mundo. Como afirma o documento do lema, “o diálogo com a vida direciona o nosso olhar para o nosso carisma, a Aliança de Amor vivida à luz da fé prática na Providência Divina”.

Este diálogo implica também confrontar-se com os desafios contemporâneos sem ingenuidade ou capitulação. Reconhecer que “muitas coisas preocupam muita gente, inquietam e deslocam”, que há “eventos que serão longamente discutidos – com o perigo de polarizar ainda mais a sociedade”. O realismo do diagnóstico é condição para a autenticidade da resposta.

Mas dialogar com a vida não é apenas observar passivamente ou adaptar-se conformisticamente. É responder criativamente, propor alternativas, testemunhar outros modos de existência possíveis. É neste sentido que a atitude do Diác. JLPozzobon torna-se paradigmática: ele dialogou com a vida de seu tempo não apenas constatando problemas, mas oferecendo respostas concretas, construindo alternativas, gerando transformação.

Com a Atitude de Pozzobon: Pedagogia do Exemplo

O lema não propõe princípios abstratos ou teorias desencarnadas, mas uma pedagogia do exemplo: “Com ele queremos caminhar, inspirados por ele queremos aprender a viver santamente”. Esta é uma característica fundamental da espiritualidade de Schoenstatt: a vinculação pessoal, a imitação concreta de modelos viventes de santidade.

JLPozzobon torna-se, assim, não apenas objeto de admiração distante, mas companheiro de caminho, inspirador de atitudes concretas. A proposta é caminhar “com a mesma atitude de Pozzobon, com um coração disposto para toda a luta, para toda a coerência e para toda a perseverança que a vida exige de nós hoje”.

Esta disposição heroica não é excepcional ou extraordinária no sentido de ser reservada a poucos eleitos, mas é o chamado universal à santidade que o Concílio Vaticano II reafirmou.

Todos são chamados a viver com atitude heroica, não no sentido épico de grandes feitos visíveis, mas no sentido evangélico de fidelidade diária, amor perseverante, doação generosa nas circunstâncias concretas da própria vida.

Santidade Missionária: Promoção Integral do Ser Humano

O documento do lema especifica que se trata de “uma santidade missionária que promove o ser humano em todas as suas dimensões”. Esta formulação é crucial e alinha-se perfeitamente com o exemplo de Pozzobon e com o magistério contemporâneo da Igreja, especialmente o Papa Francisco – pentear as ovelhas, periferias existenciais onde há sofrimento.

Santidade missionária significa que não há separação entre crescimento espiritual pessoal e compromisso evangelizador. A santidade não é conquista individual narcisista, mas dom recebido para ser partilhado. O santo não se retira do mundo, mas insere-se nele transformadoramente, levando a Boa Nova do Evangelho.

A promoção integral do ser humano recusa tanto o espiritualismo desencarnado quanto o horizontalismo secularizado. Reconhece que o ser humano é uma unidade complexa de dimensões físicas, psicológicas, sociais, culturais e espirituais, todas merecedoras de atenção e cuidado. Pozzobon exemplificou esta integralidade ao unir oração e ação, evangelização e serviço social, palavra e testemunho concreto.

Processo Sinodal: Escuta e Discernimento Comunitário

O lema insere-se também no contexto do processo sinodal que a Igreja está vivendo, iniciado sob o impulso do Papa Francisco. O documento menciona explicitamente: “Esperamos que cada um, cada família, cada comunidade, em atitude de escuta como o caminho sinodal nos pede, acolha o lema como uma proposta de crescimento”.

A atitude de escuta é fundamental. Não se trata de impor um programa de cima para baixo, mas de propor um caminho de discernimento comunitário. Cada pessoa, família e comunidade é convidada a acolher o lema não como slogan vazio, mas como “critério para a elaboração da vida”, isto é, como princípio orientador concreto para decisões, prioridades e ações.

Esta pedagogia sinodal reconhece a maturidade dos membros da comunidade eclesial, confia no Espírito Santo que fala através da consciência dos fiéis, promove corresponsabilidade e protagonismo de todos. Ao mesmo tempo, oferece uma orientação clara e uma inspiração concreta na figura de Pozzobon.

Parte IV: Aplicações Práticas – Como Ser “Herói Hoje”

  1.        Resistir ao Vazio com Sentido Transcendente

A primeira aplicação prática do lema consiste em oferecer resistência consciente e deliberada ao vazio existencial diagnosticado por Lipovetsky. Esta resistência não se dá primariamente no plano do discurso ou da denúncia, mas no testemunho de uma vida plena de sentido enraizado em realidades transcendentes.

Concretamente, isto significa cultivar uma espiritualidade profunda, alimentada pela oração pessoal e comunitária, pela participação sacramental, pela meditação da Palavra de Deus, pela vivência da Aliança de Amor no Santuário. Significa encontrar na relação com Deus, mediada pela presença maternal de Maria, a fonte de sentido que a sociedade de consumo não pode oferecer.

Implica também hierarquizar valores, colocando em primeiro lugar não a satisfação imediata de desejos superficiais, mas a construção de uma vida significativa orientada para o bem, o verdadeiro e o belo. Implica fazer escolhas contra-culturais que podem parecer incompreensíveis aos olhos do mundo: escolher a simplicidade sobre o consumismo, a doação sobre a acumulação, o serviço sobre o poder.

A segunda aplicação prática consiste em construir vínculos sólidos e duradouros numa sociedade de relações líquidas e descartáveis. Inspirados por Pozzobon, somos chamados a investir nas relações, cultivá-las pacientemente, sustentá-las através de dificuldades, renovar compromissos.

No âmbito familiar, isto significa valorizar o casamento como aliança permanente, educar os filhos com presença e dedicação, cuidar dos idosos com reverência e gratidão. Significa resistir à tentação do divórcio fácil, da terceirização da educação, do abandono dos mais vulneráveis.

No âmbito comunitário, significa participar ativamente da vida paroquial e dos grupos de Schoenstatt, criar redes de solidariedade mútua, estabelecer amizades profundas baseadas em valores compartilhados. Significa superar o individualismo e redescobrir a beleza e a força da vida comunitária.

No âmbito social mais amplo, significa engajar-se em causas coletivas, participar de movimentos de transformação social, construir pontes em vez de muros, dialogar em vez de polarizar. Significa recuperar o sentido de bem comum e de responsabilidade solidária.

A terceira aplicação prática inverte a lógica dominante do consumismo: em vez de perguntar “o que posso consumir?”, perguntar “o que posso servir?”. Esta inversão é revolucionária e subversiva dos fundamentos da sociedade de mercado.

Servir significa colocar dons, talentos, tempo e recursos à disposição dos outros, especialmente dos mais necessitados. Pode ser o serviço direto aos pobres, doentes e marginalizados, como Pozzobon fazia ao visitar famílias carentes. Pode ser o serviço na própria comunidade eclesial, assumindo responsabilidades, animando grupos, preparando liturgias, assumindo conduções de grupos do Ramo.

Pode ser também o serviço profissional exercido com excelência e ética, vendo o trabalho não apenas como meio de sustento ou realização pessoal, mas como contribuição ao bem comum.

O essencial é a mudança de paradigma: da lógica da acumulação e do ter para a lógica da doação e do ser. Esta mudança é possível apenas enraizada numa experiência espiritual profunda que liberta da escravidão ao ter e abre para a alegria da doação.

  • Amar com Perseverança e Fidelidade

A quarta aplicação prática recupera as virtudes esquecidas da perseverança e da fidelidade. Numa cultura da instantaneidade, da gratificação imediata, da mudança constante, estas virtudes soam antiquadas e irrelevantes. No entanto, são elas que sustentam toda vida significativa e todo compromisso transformador.

Perseverar significa não desistir diante das dificuldades, não esmorecer quando os resultados tardam, não abandonar projetos quando deixam de ser novidade. A perseverança de Pozzobon em 35 anos de Campanha, visitando casa por casa sem desânimo, é modelo inspirador.

Fidelidade significa manter compromissos assumidos, honrar a palavra dada, sustentar vínculos através do tempo e das mudanças. Fidelidade conjugal, fidelidade vocacional, fidelidade à missão recebida – todas estas dimensões são contra-culturais na sociedade líquida, mas são constitutivas de uma vida heroica.

Perseverança e fidelidade não são teimosia obstinada ou rigidez inflexível. São fruto de convicções profundas, de amor genuíno, de esperança teologal. São sustentadas não pela força de vontade individual, mas pela graça divina acolhida na Aliança de Amor.

Conclusão: Caminhemos Juntos como Heróis de Hoje

O lema “Em diálogo com a vida, Heróis de Hoje”, com a inspiração da figura de João Luiz Pozzobon e o diálogo crítico com os diagnósticos de Lipovetsky e Bauman, oferece à Família de Schoenstatt do Brasil e a toda a Igreja uma proposta de vida cristã organica e humanista relevante para o tempo presente.

Não se trata de uma proposta impossível ou reservada a santos canonizados, mas de um chamado universal à santidade vivido nas circunstâncias concretas de cada pessoa, família e comunidade. Cada batizado, em sua situação particular, pode e deve viver com atitude heroica, resistindo aos elementos alienantes da sociedade contemporânea e testemunhando modos alternativos de existência fundamentados no Evangelho a exemplo inspirador do Venerável Diácono JLPozzobon.

A pedagogia proposta é clara: caminhar com Pozzobon, inspirar-se em sua atitude, imitar suas virtudes, deixar-se transformar por seu exemplo. Não se trata de imitação mecânica ou externa, mas de assimilação do espírito que o animava, adaptado criativamente às circunstâncias de cada um.

O horizonte é igualmente claro: servir aos que mais precisam do amor que a Aliança com a Mãe no Santuário oferece. O heroísmo cristão não é auto-referenciado ou narcisista, mas essencialmente missionário, voltado para o outro, especialmente o mais pobre e vulnerável.

“Que assim caminhemos juntos, animados de coragem e fé, com a firme esperança” que caracterizava João Luiz Pozzobon. Este caminhar juntos, em atitude sinodal, com escuta mútua e discernimento comunitário, é o modo schoenstatiano de viver a Igreja comunhão e missão que o Concílio Vaticano II propôs e que o Papa voltou a reafirmar.

Sejamos, portanto, Heróis de Hoje:

  • não heróis mitológicos de narrativas fantasiosas, mas heróis evangélicos de santidade cotidiana;
  • não heróis solitários e auto-suficientes, mas heróis solidários que caminham juntos;
  • não heróis que buscam glória pessoal, mas heróis que servem humildemente;
  • não heróis de um tempo passado idealizado, mas heróis profundamente inseridos nos desafios contemporâneos, dialogando com a vida concreta, oferecendo respostas inspiradas pela fé e animadas pelo amor.

Que a intercessão do Venerável João Luiz Pozzobon e a proteção maternal da Mãe e Rainha Três Vezes Admirável nos acompanhem neste caminho heroico de santidade missionária.

Referências

[1] Lipovetsky, G. (1983). A Era do Vazio: Ensaios sobre o Individualismo Contemporâneo. Manole.

[2] Bauman, Z. (2001). Modernidade Líquida. Jorge Zahar Editor.

[3] Central Nacional de Schoenstatt Brasil. (2025). Lema 2025-2026: Heróis de Hoje – O Diálogo com a Vida na Atitude de João Luiz Pozzobon.

Pe. Vandemir Jozoé Meister

São Paulo, 26 de fevereiro 2026.

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Pe. Vandemir Jozoé Meister

Assessor Nacional do Terço dos Homens Mãe Rainha.

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